Doença falciforme é tema de debate em universidade de Campinas

Doença falciforme é tema de debate em universidade de Campinas

Pesquisadores da Unicamp e do King’s College London, do Reino Unido,  se  encontraram no evento “Brazil-UK Workshop on Hemoglobinopathies”, realizado no salão nobre da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) para debater os avanços em relação à doença falciforme.

O objetivo do debate em torno da doença foi “a troca de informações na direção de buscar a cura da anemia falciforme, de novos medicamentos e de entender melhor a fisiopatologia da doença”, afirma o professor Fernando Costa, coordenador do grupo de pesquisa sobre Hemoglobina do Hemocentro. O grupo possui aproximadamente 40 projetos em andamento.

Promovido nos dias 11 e 12 de abril, o workshop foi organizado pela pesquisadora Nicola Conran. A iniciativa começou com dois projetos, que tiveram apoio do Fundo de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), e intercâmbio de pesquisa.

“O objetivo da parceria é ter um grande grupo de pessoas que compartilham uma característica ou experiência comum de pacientes com anemia falciforme. Fazemos várias pesquisas em parceria sobre modificadores genéticos e fisiopatologia da doença”, revela Nicola Conran.

Tratamento

A anemia falciforme é uma doença crônica com tratamento clínico bem-estabelecido e que tem o Hemocentro como uma importante referência. Atualmente, as únicas possibilidades de cura da doença seriam o transplante de medula óssea ou terapia gênica, mas que ainda se configura como uma alternativa disponível para poucos pacientes.

Uma das doenças mais prevalentes mundialmente, a doença falciforme (que compreende sobretudo a anemia falciforme e a doença da hemoglobina C) é considerada um grave problema de saúde pública. Estima-se que, mundialmente, cerca de 300 mil crianças nasçam por ano com doença falciforme – a maioria em países de média e de baixa renda.

Pesquisas

A geneticista do Centro de Biologia Molecular e Engenharia Genética da Unicamp Mônica Barbosa de Melo, uma das palestrantes, contou que o seu grupo de pesquisa tem trabalhado com complicações associadas à doença falciforme. No caso da anemia falciforme, a causa é uma única mutação genética.

Essa alteração faz com que haja uma modificação no formato da hemácia. De bicôncava, ela pode assumir a forma de foice que, ao longo de eventos de oxigenação/desoxigenação, acaba permanecendo nesse formato alongado, obstruindo os capilares. Há registros de uma grande variabilidade fenotípica, que se reflete nas várias complicações apresentadas pelos pacientes, que variam tanto em número como em gravidade.

“Buscamos identificar marcadores genéticos que apontem, por exemplo, por que um paciente apresenta certas complicações e outros não, como o acidente vascular cerebral (AVC), a retinopatia, a úlcera de perna, assim como complicações na gravidez. Tentamos entender os moduladores genéticos da doença falciforme”, explica Mônica Barbosa de Melo.

Placenta

A doença falciforme também pode seguir com complicações na gravidez. Por isso, a pesquisadora comentou que o seu grupo de pesquisa desenvolve um projeto que estuda as grávidas falciformes, em cooperação com o Hospital da Mulher. Participam as obstetras Maria Laura Costa Nascimento, Mary Angela Parpinelli e Fernanda Surita.

“Normalmente, as mulheres com doença falciforme apresentam maior risco para complicações na gravidez, como piora da anemia, crises álgicas, síndrome torácica aguda, suscetibilidade a infecções, restrição de crescimento fetal e pré-eclâmpsia, com riscos para a mãe e para o feto”, ressalta Mônica Barbosa de Melo.

A pós-graduanda Letícia Carvalho, que cursa o doutorado sob orientação de Mônica e coorientação de Maria Laura Costa, avalia a placenta das pacientes com doença falciforme neste projeto desenvolvido no Caism. No seu mestrado, a aluna analisou o perfil de expressão gênica da via inflamatória e encontrou alterações de expressão de alguns genes.

A cientista informou que, para tentar identificar genes que possam estar diferencialmente expressos nas placentas dessas pacientes, amostras de vilosidades coletadas a partir da face materna da placenta são obtidas logo após o parto e posteriormente submetidas à extração de material genético.

Metodologia

Após a extração de RNA, ela o leva para sequenciamento no Laboratório Central de Tecnologias de Alto Desempenho. O local retorna os resultados gerados, que são analisados por meio de ferramentas de bioinformática. “Já encontramos alguns genes diferencialmente expressos ligados à via do estresse oxidativo”, revela Letícia Carvalho.

Os resultados obtidos por sequenciamento de RNA poderão fornecer importantes dados para uma melhor compreensão de como a doença afeta a fisiologia da placenta e aumenta os riscos de complicações materna e fetal, ampliando as possibilidades para estudos futuros.

Além do projeto com placentas, há também outras iniciativas em andamento que estudam retinopatia, úlcera de perna e AVC, todos em pacientes falciformes. O projeto de úlcera de perna, por exemplo, busca identificar variantes genéticas que possam ser utilizadas, futuramente, como marcadores para a identificação de pacientes com maior predisposição a desenvolver a complicação.

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