HC marca a medicina com primeiro bebê nascido de transplante de útero de doadora morta

HC marca a medicina com primeiro bebê nascido de transplante de útero de doadora morta

O Hospital das Clínicas realizou em dezembro de 2017 a primeira operação bem-sucedida de um bebê nascido de transplante de útero com doadora falecida. O feito é inédito no mundo e ganhou destaque na revista especializada “The Lancet”, no começo deste mês, após a criança completar um ano de forma saudável.

Toda equipe participante – composta por cerca de 40 pessoas – é brasileira e tem relação com o Hospital das Clínicas. Do começo ao fim, todas as fases do estudo foram desenvolvidas no HC: da cirurgia do transplante à fertilização in vitro e do pré-natal ao parto.

O ineditismo do marco é tão grande quanto sua complexidade. Na história da medicina, já nasceram 12 bebês de úteros transplantados. Ainda que o número seja pequeno, a técnica ainda está sendo aperfeiçoada. Mas então por que nunca antes havia sido feito um transplante de útero de uma doadora falecida?

“Porque é muito mais difícil de planejar. O útero de uma doadora falecida, normalmente, precisará ser descolado para outro hospital e o tempo que o órgão fica sem oxigênio é muito maior”, explica Dani Ejzenberg, ginecologista, especialista do Centro de Reprodução Humana. Ele é um dos autores do estudo publicado na “The Lancet”, junto com Edmund Paracat, Luis Albuquerque Carneiro e Wellington Andraus

A receptora do transplante nasceu com uma doença chamada de síndrome de Hause, uma condição genética que faz com que a vagina e o útero de um paciente estejam ausentes ou não desenvolvidos por completo, ainda que os genitais externos pareçam normais e os ovários funcionem. A doadora tinha 45 anos quando morreu por conta de um derrame.

 

Inovação

A operação feita no HC proporciona duas inovações para a medicina nacional e mundial. O primeiro feito foi reduzir o tempo entre a cirurgia e a colocação dos embriões do útero. Na Suécia, o procedimento foi feito em um intervalo de um ano, quanto no Brasil esse tempo foi reduzido em sete meses, sem rejeição da paciente.

A equipe médica também aperfeiçoou a cirurgia. Wellington Andraus, ao invés de ligar duas veias, conectou quatro veias, diminuindo, assim, o risco de trombose.

Pioneirismo

“O Hospital das Clínicas sempre teve uma grande tradição em ciência e cirurgia. Quando junta-se os dois, acaba havendo um avanço em todos os campos da cirurgia”, explica Ejzenberg.

É fato que o Hospital das Clínicas de São Paulo tem uma tradição em pioneirismo quando o assunto é transplantes. Neste ano, completa-se  50 anos do primeiro transplante de coração do Brasil.

“O primeiro transplante trouxe foco ao tratamento de doenças cardiovasculares. O sonho de ter um instituto que pudesse tratar esse tipo de problema foi se concretizando”, conta o Vice-Presidente do Conselho Diretor do InCor e Diretor do Serviço de Cirurgia Torácica, Prof. Dr. Fábio Jatene, sobre a criação do InCor.

São Paulo na ponta

O Estado de São Paulo não está na ponta dos transplantes nacionais apenas pelo seu número de habitantes. Atualmente, os paulistas recebem pacientes de todos os cantos do Brasil, que são registrados na lista de espera paulista, para realizar o procedimento.

É o que acontece com os transplantes de pulmão, que coloca o Estado na vanguarda comparado com vários países. O Instituto do Coração (Incor), vinculado ao Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, é um dos únicos capacitados para tal prática.

Trata-se de uma logística bastante complexa comparada com os demais órgãos, pois as chances de danos são maiores e exigem uma avaliação mais profunda. Por esse motivo, o médico Paulo Pêgo Fernandes, diretor da Divisão de Cirurgia Torácica da entidade, explica que a grande dificuldade está em manter uma equipe motivada para realizar o trabalho.

“É uma cirurgia mais longa. Na maioria das vezes, são quatro em uma, pois temos que tirar os dois pulmões e colocar os dois doados. Por isso, é necessária uma estrutura hospitalar grande, com acompanhamento multidisciplinar. Isso não é fácil de encontrar”, afirma.

No ano passado, a equipe de Fernandes realizou mais de 50 transplantes. “É um desafio que buscamos há décadas e que hoje nós podemos oferecer. Com esse serviço diferenciado, é a nossa obrigação atender a população”, completa.

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