Programa Recomeço: recuperação tem início na abordagem

Programa Recomeço: recuperação tem início na abordagem

Todo mundo sabe o bem que as conquistas nos fazem. O bebê que aprende a dar os primeiros passos, as boas notas na escola, um aumento salarial, o novo posto de trabalho ou a compra da casa própria. Dos mais simples aos mais importantes passos em direção a um objetivo ou vitória, todos eles representam muito em nossas vidas.

Para Ezaú, que consumiu crack nas ruas da Cracolândia e deixou as drogas para ajudar outras pessoas a vencer a dependência, a conquista representa o início de uma nova etapa. Ele é um dos 60 profissionais denominados conselheiros que trabalham na Unidade Recomeço, parte integrante da rede do Programa Recomeço do Governo do Estado de São Paulo.

Diariamente, eles saem às ruas para conversar com usuários de crack na tentativa de convencê-los da existência de uma nova oportunidade esperando por eles. O primeiro passo é um convite para conhecer a unidade.

O prédio de 10 andares, localizado na rua Helvetia, na região central de São Paulo, onde ficava o principal ponto de concentração dos frequentadores da Cracolândia, é um centro de convivência que ocupa os primeiros quatro andares, apenas para o desenvolvimento de atividades livres para os usuários.

A Unidade Recomeço não impõe nenhum tipo de condição para que o dependente químico utilize o espaço. Lá, é possível tomar banho, cortar o cabelo, ouvir música e participar de diferentes atividades.

Em um dos andares há uma academia de ginástica, no outro um refeitório que oferece três refeiçoes diárias e um espaço para prática de cozinha experimental. Três andares são reservados para moradias monitoradas, duas alas masculinas e uma feminina, com quatro dormitórios e três leitos.

O prédio ainda tem dois andares ocupados pela enfermaria para desintoxicação de pacientes que decidem pela internação médica, com médicos, enfermeiros e psicólogos, e funcionamento 24 horas.

Apoio
Durante o período de moradia, que tem limite de 30 dias, a Unidade Recomeço tenta restabelecer os laços familiares dos pacientes. As pessoas que lá estão têm liberdade para sair em busca de emprego e moradia e, enquanto permanecem na unidade, são acompanhados pelos profissionais que utilizam uma técnica denominada de “gerenciamento de caso”.

A técnica é utilizada para identificar as necessidades das pessoas e obter os recursos que possam ajudá-las a, por exemplo, conseguir documentos, obter algum benefício social, encaminhar para empregos e cursos de capacitação profissional. O objetivo é dar autonomia para as pessoas e proporcionar os meios para que elas possam viver com os próprios recursos.

Os que contam com apoio da família são encaminhados para suas casas e continuam o tratamento nas unidades do CAPS (Centros de Atenção Psicossocial). Quem não conta com esse apoio pode optar por uma comunidade terapêutica conveniada ao Programa Recomeço, onde pode ficar por até seis meses, ou pela moradia na Unidade Recomeço.

A ideia da comunidade terapêutica é a de retirar o dependente do ambiente em que ele pode ter acesso à droga. Na Unidade Recomeço, por sua localização, é preciso mais estrutura do que na comunidade porque a pessoa está mais exposta ao ambiente propício ao uso de drogas.

“Por isso eu digo que a Unidade Recomeço é um exemplo do que é o Programa Recomeço como um todo, composto não por uma, mas por muitas ações combinadas, em fases diferentes do processo de recuperação”, afirma o diretor do programa e psiquiatra Cláudio Jerônimo. Atualmente, o programa oferece cerca de 3.300 vagas entre leitos de desintoxicação em hospitais e comunidades terapêuticas.

Um exemplo
Todas as manhãs, conselheiros como Ezaú saem às ruas nas proximidades da Unidade Recomeço para conversar com os usuários de crack. É preciso habilidade e capacidade de comunicação para conversar com as pessoas, usar os mesmos termos que os usuários, saber se aproximar. É um trabalho de “formiguinha”, para, com muito tato, oferecer a oportunidade de tratamento para superar a dependência das drogas.

Os que aceitam participar são encaminhados para o Cratod (Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas), também do Programa Recomeço. Os que se recusam são convidados a conhecer a Unidade Recomeço e, enquanto participam das atividades, os conselheiros procuram conhecer a pessoa para saber de suas necessidades e oferecer o cuidado.

É algo muito próximo do que aconteceu com Ezaú, de 23 anos, que morava em Taboão da Serra, na Grande São Paulo, e se afastou da família porque era usuário de drogas. Em São Paulo, passou a morar na rua. Foi nas ruas que ele conheceu o crack, mas antes de aprofundar a dependência, Ezaú, que já sabia de equipamentos do governo estadual como o Cratod, resolveu parar de vez com o consumo. Começou a frequentar a Unidade Recomeço e participar de atividades como a sala de educação física e a oficina de música.

“Foi bem difícil se livrar das drogas”, admite Ezaú. “Eu já vinha tentando parar por vontade própria desde os tempos em que morava em Taboão da Serra. Passei cinco ou seis anos assim e foi aqui que eu consegui abrir os olhos”, revela.

A recuperação de Ezaú começou com a internação em uma comunidade terapêutica religiosa do interior do Estado durante três meses. Depois desse período, ele retornou ao centro da cidade, onde teve um “lapso”, caracterizado por um deslize, em que a pessoa que está em recuperação volta a consumir a droga, sem, no entanto, regredir ao estágio de dependência anterior. Lapso se difere da recaída, já que nesta o dependente volta a consumir nos mesmos níveis anteriores ao tratamento.

Na Unidade Recomeço, Ezaú soube de uma oportunidade para trabalhar como chapeiro em uma lanchonete e conseguiu uma vaga em um albergue. “A minha vida começou a se mover de maneira diferente”, conta.

Ele foi convencido pela mesma pessoa que indicou o trabalho de chapeiro a melhorar de vida não para dar satisfação à família, mas para se beneficiar disso. Ezaú voltou a estudar durante o dia e à noite passou a frequentar as atividades da Unidade Recomeço, enquanto nos fins de semana trabalhava na lanchonete.

Também começou a distribuir currículos para encontrar um emprego mais estável. Por orientação das pessoas da unidade, escreveu uma carta ao diretor acompanhada do currículo para tentar uma vaga como conselheiro.

Hoje, Ezaú não mora mais no albergue. Conseguiu alugar uma casa, onde mora com a namorada. “Foi aqui no prédio que eu abri os meus horizontes e pude participar desse projeto que me deu a oportunidade de ajudar as pessoas, utilizando a minha experiência de ex-usuário de drogas”, diz.

População flutuante
A Unidade Recomeço iniciou suas atividades em julho de 2014 e é gerenciada pela Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM), uma organização social contratada pelo Programa Recomeço para gerenciar o equipamento. Fica na rua Helvetia, 55, região central de São Paulo, e realiza cerca de 600 abordagens por mês, com aproximadamente 200 encaminhamentos para tratamento, no mesmo período.

A abordagem feita pelos conselheiros é o primeiro passo para convencer o dependente que ele necessita de ajuda. Convencido disso, o passo seguinte é o encaminhamento ao Cratod, onde ele será direcionado ao tratamento na rede de assistência do CAPs e das comunidades terapêuticas, vinculadas ao Programa Recomeço.

Outro caminho é a internação médica. Nesse caso, ele pode ser encaminhado para a Unidade Recomeço, para internação na enfermaria. “Aqui é a internação médica tradicional, bem estruturada, com médicos e enfermeiros 24 horas e outros profissionais de saúde, como psicólogos e assistentes sociais”, explica Cláudio Jerônimo.

A população da Cracolândia é estimada em 1.800 pessoas. A Unidade Recomeço tem 8 mil pessoas cadastradas. Esse número decorre do caráter flutuante da população. De acordo com Jerônimo, cerca de 30% dessas pessoas são provenientes de outros estados, muitos vêm do interior em busca do acesso fácil às drogas. A população também aumenta em datas festivas, em decorrência das saídas temporárias concedidas aos detentos.

A Unidade Recomeço, de acordo com Jerônimo, registra quase 3 mil atividades desenvolvidas por mês no centro de convivência. Das pessoas que estão na moradia monitorada, 51% permanecem ou foram reinseridas, 49% apresentaram algum tipo de recaída, mas metade delas permaneceu no Programa Recomeço, um terço retornou para suas famílias e apenas uma pequena parte não conseguiu prosseguir. “Comparada com a literatura, esse é um índice muito superior ao verificado em termos de recuperação, que é em torno dos 30%”, comemora o diretor.

Para procurar a ajuda do Programa Recomeço, o interessado pode contatar o Disque Recomeço pelo 0800 227 2863 ou acessar o site da Unidade Recomeço.

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