Workshop no Instituto Butantan dá início a ‘força-tarefa’ contra bactéria que causa diarreia

Workshop no Instituto Butantan dá início a ‘força-tarefa’ contra bactéria que causa diarreia

Pesquisadores e pós-graduandos da área de patogenicidade, epidemiologia e diagnóstico, do Brasil e de outros países, participaram no fim da semana passada (quinta e sexta-feira), no Auditório do Museu Biológico no Instituto Butantan, do Workshop Internacional “Intestinal Pathogenic Escherichia coli: pathogenesis, epidemiology and diagnostics”. O evento foi considerado o pontapé inicial de uma “força-tarefa” internacional contra a bactéria Eschirichia coli, da qual participam Brasil (Instituto Butantan), Chile (Universidade do Chile), Israel (Universidade de Tel Aviv) e Alemanha (Universidade de Münster).

A bactéria Escherichia coli ou E. coli não é estranha ao organismo humano, já que sua forma comensal (que não causa doenças) está presente na microbiota intestinal, ou seja, no intestino de todas as pessoas. Na maioria das vezes, o convívio é harmonioso, não havendo doenças, porém, a troca de material genético que é muito comum entre bactériastem possibilitado à E. coli adquirir os chamados “fatores de virulência”, ou seja, recursos que permitem a ela conseguir driblar o sistema imunológico do corpo humano, ao mesmo tempo em que se torna patogênica, ou seja, capaz de causar doenças. A diarreia é o principal sintoma causado pela E. coli patogênica.

A gravidade da infecção é diretamente proporcional aos genes da virulência adquiridos pela bactéria e também às condições imunológicas do portador. Para as bactérias E. colidiarreiogênicas, os principais alvos são as crianças e os imunossuprimidos (pessoas com a imunidade reduzida devido a alguma doença ou tratamento de saúde, como pode ser o caso de tem HIV e de pessoas que fizeram transplante). Além da diarreia, a E. coli também é agente causador de doenças como infecções urinárias, meningite e septicemia (quando a resposta do organismo a uma infecção danifica os seus próprios tecidos e órgãos).

Workshop divulga diversidade das pesquisas no IB

Fizeram parte da comissão organizadora do Workshop Internacional Waldir Elias e Roxane Piazza, ambos pesquisadores do Laboratório de Bacteriologia do IB, e o professor Ulrich Dobrindt, da Universidade de Münster, na Alemanha. O evento teve apoio do Instituto Butantan, da Fundação Butantan e do German Center for Research and Innovation (DWIH).

“Recentemente nós tivemos aprovado um projeto chamado ERANet Lac, que é um programa europeu envolvendo sempre dois parceiros da Europa e dois latino-americanos. Nós tínhamos, então, que realizar a reunião inicial e, ao invés de fazermos um evento fechado, tivemos a ideia de promover um workshop convidando pesquisadores. Aqui em São Paulo, temos uma massa crítica de pesquisadores que estudam diferentes aspectos da E.coli diarreiogênica”, afirmou Roxane.

De acordo com ela, hoje há diversas pesquisas sobre a bactéria em andamento, por exemplo, no próprio Laboratório de Bacteriologia do Instituto Butantan, na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), na USP (Universidade de São Paulo), na Unesp (Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho) e na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Uma sessão de pôsteres foi organizada no espaço expositivo do CDC (Centro de Difusão Cultural) do Butantan, para que outros projetos (além dos apresentados durante o workshop), também pudessem ser divulgados.

“A Organização Mundial da Saúde estima que cerca de dois milhões de crianças morram em decorrência das diarreias. A bactéria E. coli é um problema de saúde pública mundial e entre as bactérias ela é a maior causadora de diarreias”, afirmou a pesquisadora do Butantan.

A pesquisadora Rita Ruiz, também do Laboratório de Bacteriologia do IB, fez uma das apresentações do workshop. Ela lembrou que o evento também é uma ferramenta importante para divulgar outras vocações científicas do Instituto Butantan.

“Vejo esse workshop como uma importante oportunidade para projetar o Instituto Butantan como uma instituição geradora de conhecimentos também na área de E. coli diarreiogênica. Somos reconhecidos como liderança nas áreas de animais peçonhentos, produção de vacinas, mas o estudo de microorganismos importantes à saúde pública, inclusive no nosso país, está em concordância com a nossa missão”, disse a pesquisadora.

Para Waldir Elias, um dos organizadores do evento e diretor do Laboratório de Bacteriologia, também foi uma oportunidade para os pesquisadores poderem manter contato com profissionais brasileiros e estrangeiros que estudam a mesma bactéria, o que fomentou perspectivas para futuras parcerias.

“A diarreia ainda é uma causa de mortalidade e morbidade no Brasil. Embora os casos de mortalidade tenham caído com o advento da vacinação contra o rotavírus e da terapia da reidratação oral, especialmente nos estados do Sudeste, no Nordeste, a situação ainda é crítica. No Brasil, como um todo, as doenças diarreicas são a 2ª maior causa de mortalidade infantil. Vários agentes causam diarreia, dentre eles, as bactérias e, dentre as bactérias, a mais importante é a Escherichia coli, que é o foco do nosso estudo”, disse o pesquisador.

Programa ERANet Lac unirá pesquisadores de quatro países contra a bactéria

O programa ERANet Lac terá duração de três anos e visa unir forças entre as pesquisas dos quatro países para obter avanços relacionados à prevenção, ao diagnóstico e ao tratamento. O pesquisador Ulrich Dobrindt, da Universidade de Münster, na Alemanha, afirmou considerar muito gratificante vir para o evento e poder conversar com outros estudiosos do assunto, como Waldir e Roxanne, do Instituto Butantan, com quem nunca havia estado pessoalmente antes.

Segundo ele, apesar da E. coli gerar muitos problemas aos países mais pobres do mundo, há uma enorme preocupação com a bactéria também nos países desenvolvidos, como a Alemanha. “Além de ser um dos patógenos mais perigosos, que mata pessoas por diarreia, a E. coli também causa infecções e quadros de septicemia. Ela está ficando cada vez mais resistente aos antibióticos e isso acontece no mundo todo. É um problema que afeta todos nós, por isso temos que estudar os seus diferentes tipos”, disse Ulrich.

A bactéria foi descoberta em 1885, pelo pesquisador alemão-austríaco Theodor Escherich, e vem sendo muito estudada desde os anos 60. A E. coli também é conhecida entre pesquisadores e a indústria farmacêutica por produzir proteínas recombinantes, o que faz com que seja utilizada por vários projetos que envolvam engenharia genética.

Entidades falam das parcerias Brasil e Alemanha

Ainda na abertura do evento, a diretora da DDC (Divisão de Desenvolvimento Científico), Sandra Coccuzzo Sampaio Vessoni, convidou, um a um, representantes dos programas para a intensificação de projetos cooperativos entre Brasil e Alemanha, voltados para as atividades de pesquisa. Marcaram presença no evento, o German Centre for Research and Innovation (representado por Marcio Weichert), a German Research Foundation (representada por Christiane Wolf), a German Academic Exachange Service (representada por Anna Barkahausen) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (representada por Alexandre Rocatto). Todos falaram um pouco sobre a história de seus programas respectivos e sobre como têm fomentado as parcerias na área de pesquisa científica.

“Nós acreditamos na troca de conhecimento, na cooperação científica e em compartilharmos informações”, disse Weichert sobre o German Centre for Research and Innovation.

Já Alexandre Rocatto, lembrou que a brasileira Fapesp, um dos maiores parceiros do Instituto Butantan, investiu R$ 1,2 bilhão em pesquisas no ano passado, inclusive financiando a parte do IB nas pesquisas de E. coli da própria rede ERANet Lac.

Outra representante das fundações Cristiane Wolf, lembrou que a German Research Foundation tem ajudado os pesquisadores a iniciarem projetos e afirmou que as parcerias têm aspectos muito positivos também do ponto de vista econômico para os países. “É importante lembrar que os projetos de colaboração permitem que o Brasil arque com metade dos investimentos e a Alemanha, com metade também. É uma forma de pouparmos dinheiro e é uma perspectiva da qual realmente gostamos”, disse Christiane.

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